O mestre das ilusões

Recentemente joguei Resident Evil, Silent Hill e lembrei do Alone in the Dark. Estes jogos inspiram pessoas como eu a escreverem histórias do estilo Stephen King. Esta será um pequeno conto, então espero que gostem.




Michael Tarrance apertou a maçaneta da viatura e acomodou-se no banco do motorista. Fechou os olhos por dez segundos e sentia-se estranhamente tranquilo, embora a patrulha da madrugada fosse demasiadamente cansativa e com pouca ação. Na realidade com a falta de policiais naquele mês, Tarrance decidiu pegar aqueles horários maus vistos por qualquer tira, talvez porque não fosse tão frenético do que durante o ápice da noite quando a polícia tinha que lidar com bêbados que saiam de casas noturnas e outros drogados que esperavam uma vítima ingênua em determinada esquina.



A madrugada acalmava Michael e o inspirava a pensar na vida, futuros planos e o anseio de formar uma família. Era bom e sentia-se melhor, ainda mais com o salário que aumentou consideravelmente com a sua atitude voluntária. Seus pensamentos se embaralharam novamente quando seu parceiro adentrou no sedan.

Carregado com seu humor exacerbado, Toni “Lobo” Micolto era um amigo de longa data de Tarrance e este ficava feliz em ter um colega como Toni na patrulha. O “Lobo” como chamado, era um rapaz robusto de queixo quadrado e uma barriga que se confundia em gordura e músculos, demonstrando sua rigidez. Ganhara esta alcunha porque antes de entrar na polícia, dizia-se que nascera devorando carne, fato que comprova isso foi a sua participação em uma competição de quem comia mais em menos tempo, o que acabou rendendo uma medalha de ouro e passes grátis em um restaurante refinado. Tinha a face redonda, olhos castanhos claros, cabelos lisos, finos e sempre bem penteados, o Lobo era um perfeito italiano. Já o chamaram de mafioso ou “cappo” no passado, todavia quando entrou na polícia todos já sabiam de sua lealdade com as leis e temiam inventar tais tipos de comparação. Conhecera Tarrance na academia e dali em diante jamais se separaram.

Tarrance por sua vez era sério. Com um cavanhaque levemente loiro que contrastava com o uluar e a escuridão da noite, garrafa de whisky sempre cheia e escondida em um compartimento no porta luvas, lembrava um típico britânico que programava e acima de tudo respeitava cada horário, seguindo uma meticulosa tradição que nem ele sabia ao certo quando surgira.

-Esse café está complicado de tomar. Estes jovens que trabalham de madrugada parece que estão dormindo. –Dizia Toni bebendo um café forte e tinto dentro de um copo de plástico descartável.

-É engano seu. –Sorriu Tarrance repousando as mãos na marcha e olhando para o espelho retrovisor. Passou as mãos nos olhos castanhos escuros e olhou para seu amigo.

-O que acha que temos? Bêbados, vagabundos, drogados..?

O Lobo lançou uma gargalhada alta na atmosfera, tomando um longo gole do café e virando o copo tão bruscamente que quase tudo caiu em seu rosto. Tarrance não sabia explicar como não havia se queimado ainda.

-Depois daquela cassetada que você deu naqueles adolescentes, membros de gangue, eu duvido que vão nos incomodar. Pelo menos durante algum tempo. -Completou Toni.

-“Unidades das redondezas. Denúncia de 150 em andamento na Rua Warrington nº346. Repetindo, nº 346 da Rua Warrington nas proximidades da rodovia estadual.” –Falou uma voz feminina no rádio em meio de vários chiados.

-Patrulha 456 à caminho. –Respondeu Tarrance olhando para o letreiro de néon do mercado 24 horas que estavam estacionados. A rua Warrington era um local abandonado que traficantes e usuários usavam como ponto de encontro. Por um momento hesitou, mas hoje estava armado com a sua espingarda. Era prevenido.

-Droga! Essa Victoria nem aqui cala a boca. –Exclamou o Lobo exasperado e espremendo o copo de plástico com a sua força anormal. –Aquela rua é esquecida e só tem casas velhas e abandonadas.

O outro policial riu, mas ele já estava dando a ré e com as duas mãos no volante. Preferiu não responder e ligeiramente olhou o Lobo que estava com a mão na boca olhando o cenário pela janela. As luzes do supermercado reluziam no capo e no vidro da viatura. Tarrance ligou as sirenes e acelerou, de maneira que a paisagem fora do veículo se resumia apenas em um borrão quase que incompreensível. Naquela altura da noite os semáforos somente piscavam o sinal de atenção afim de evitar assaltos à carros que parassem no sinal vermelho.

Apenas alguns bares, cujos frequentadores se espalhavam aos montes pela rua cantando músicas aleatórias estavam abertos, ao lado de bordeis clandestinos cuja fachada era sempre um restaurante ou uma casa noturna refinada, porém aos poucos a face das construções foram mudando. De mansões e casas da classe média alta, agora viam apenas casebres de madeira e casas ou sobrados de alvenaria com infiltrações, pichações de gangue e portões enferrujados. As que não tinham certamente foram roubadas.

Estranhamente uma neblina cobria toda a rua Warrington como se tivessem jogado gelo seco por todo o ambiente, porém a fuligem começou a cobrir o vidro do carro. Tarrance escondeu o espanto através de um suspiro, apenas ligando o para-brisas enquanto pensava o quanto aquilo soava um clichê de um cenário de filme de terror pouco criativo. Toni continuava irritado. A rua estava deserta, não fosse por uma silhueta de homem de baixa estatura que caminhava solitariamente pela rua. Tarrance teve dificuldades em localizar a residência, enxergando o número apenas quando o rapaz do manto passou pela viatura, chamando a atenção dos seus ocupantes.

Toni franziu o rosto, engatilhou a arma acoplada com a lanterna e abruptamente saiu para fora do veículo. Antes da porta se fechar, Tarrance empurrou ela.

-Você é maluco? Isto pode ser uma emboscada.

-Emboscada? Se fizerem isso amanhã derrubam todo este lugar. –Riu Toni verificando a lanterna.

O policial tateou atrás do banco do passageiro até achar a espingarda, engatilhando a arma e saindo do veículo, avistando seu amigo conversando com o homem do manto. Verificou a casa da possível ocorrência. Era um sobrado simples, cuja base era de alvenaria e o andar superior de madeira escura, as janelas estavam fechadas por tábuas cuidadosamente colocadas e pregadas, porém a porta de entrada sequer tinha maçaneta. Não havia portões e tudo parecia estar em ordem.

-Hey Tarrance, este homem disse que não viu nada por aqui. Podemos voltar. –Disse o Lobo apresentando o mendigo através de um aceno.

-O que faz por aqui nessas horas? –Indagou Michael, vendo o homem de cima a abaixo.

-Calma. Por favor. Eu moro aqui e não sou usuário e nem ladrão. Apenas fui ver o lixo. –Disse o homem retirando um pequeno saco cheio de latas de dentro do seu manto rasgado. Um sorriso ganhava ênfase em seu rosto pálido com a barba a fazer.

-Certo... Apenas peço que se retire. Nada pessoal e não é pela sua aparência, mas esse nevoeiro sempre esconde algo. O que acha de ir para casa? –Disse Tarrance rispidamente, embora soubesse que na realidade o homem era um mendigo e certamente ocupava alguma daquelas casas abandonadas.

O homem assentiu olhando para baixo, permanecendo nesta mesma posição até cruzar a esquina ao longe, lançando um olhar suspeito na dupla de policiais antes de sumir em meio das residências.

-Normal Michael. Vamos. Essa casa nem deve ter nada. –Respondeu Toni observando as sirenes da polícia que reluziam nos olhos de quem via e nos vidros das janelas das casas.

Tarrance subiu e soltou três pequenos golpes contra a porta de madeira podre. Era de um modelo antigo e rústico, ao qual possivelmente fora colocado décadas atrás. Toni no seu modo desajeitado, passou na frente do seu companheiro e lançou dois escandalosos e grosseiros socos na porta, ordenando através de gritos histéricos que a abrissem.

-Abram.É a polícia e recebemos uma denuncia!

Michael franziu o rosto e levou as mãos ao rosto, olhando posteriormente uma janela ao lado da entrada.

-Está escuro lá dentro. Podem ter vendado tudo, então vamos arrombar.

Por um momento os olhos do policial brilharam, porém ficou incrédulo. Era ridículo aquilo, visto que Tarrance jamais tomava atitudes radicalistas, todavia não o questionou. Queriam ver o que tinha na casa.

-Está mudando Tarrance? Eu percebi e vou arrombar esta porta eu mesmo.

O policial levou a espingarda na altura do peito enquanto o seu colega desferia golpes contra a porta. Não foi necessário muito esforço, bastando um chute de Toni para que fosse lançado um “tunc” no ambiente, fazendo a porta se abrir violentamente e a maçaneta saltar longe, parando apenas após um rodopio. Tarrance bufou e verificou meticulosamente a entrada, mesmo que não houvesse sequer um feixe de luz nas redondezas. Os postes eram insuficientes.

-Que escuro. –Disse Toni erguendo a lanterna e tentando observar a escuridão impenetrante que dominava o recinto.

Michael avançou pela lateral com seus olhos arregalados e a espingarda com a lanterna acoplada em punho. Toni adentrou o lugar com pouca cautela, trazendo consigo a pistola ainda travada. Ambos tentavam se acostumar com a escuridão, no entanto já se convenciam que nada havia ali, exceto talvez um bando de adolescentes rindo em algum lugar por terem feito mais uma piada. Toni ameaçou quebrar os móveis caso ninguém aparecesse, entretanto Tarrance evitou que fizesse aquilo. A luz do luar iluminava até um tapete bicolor cujas cores se misturavam quando se contrastavam.

-Polícia! Pela última vez! Recebemos uma chamada. Alguém está aqui? –Falou Toni observando o ambiente com a lanterna. –Não tem ninguém Tarrance, foi um trote. –Murmurou cabisbaixo.

-Acho que não. –Respondeu seu colega, passando as mãos sob uma estante empoeirada, provavelmente de séculos passados da era vitoriana.

O policial observou uma vela acesa ao lado de uma porta, não muito longe de onde estavam. Ele se aproximou e pegou um pedaço de papel dobrado ao lado do castiçal dourado, lendo de maneira lenta e proporcionalmente exasperada o conteúdo dela:

-Sim Tarrance. Talvez fomos realmente chamados.

CONTINUA NA PRÓXIMA PARTE.

Créditos da imagem por: XMEGAPOLIS (devianart).

Comments

  1. Grandíssimo post! Trouxe-me reminiscências da época em que jogava os primeiros RE. xD
    Esperando ansiosamente a continuação...

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