Half Life: Blue Shift - Capítulo 3 Prt.2









CAPÍTULO 3: Prt. 3
Capítulo 3 - Captive Freights - Parte 2

Freight Yard


A vida era feita de episódios. Poderiam mudar radicalmente de forma súbita ou simplesmente de uma maneira bastante peculiar. Não esperava encontrar uma saída estampada com néon extravagante quando chegasse ao topo. A adrenalina em quantidade exagerada movia seus batimentos cardíacos e seu cérebro que tomasse a mais conhecida e enraizada dos instintos naturais de um homem em pânico: correr e fugir.


O ambiente acinzentado era meramente resumido em uma série de corredores com caixas de madeira e fios de alta tensão soltos. Não se diferenciava do local anterior, exceto pelo fato de que estava na superfície, ou próximo, dando para contar pontos de vantagem. A estrutura abalava e ao longe era possível ouvir vários sons de tiro.

Os corredores estavam infestados de alienígenas. Pequenos ou grandes, sempre causavam problema para o calmo segurança da Área 3. Estourava cabeças, perfurava peitos e outras insanidades, uma daquelas pequenas criaturas que “zumbificavam” humanos teve toda a estrutura corporal reduzida à uma pasta laranja após ser atingida. Todos encaravam Barney, e este já se sentia cada vez mais seguro do que estava fazendo. Os seres bípedes que lançavam raios mortíferos, não representavam grande ameaçada. Calhoun até gostava de atirar naqueles alvos e assistir eles caindo retos no chão gemendo de dor.

As esferas de chumbo atravessavam sem piedade o peito e a cabeça dos alienígenas que sem resistência caíam pelo chão lúgubre. O sangue escorria pelo chão e nas paredes, formando desenhos assombrosos e bizarros dignos de pessoas apreciadoras de humor negro.

O trajeto parecia fazer zigue-zague. Hora ou outra um estrondo abalava a construção e uma nova rachadura surgia no teto feito de concreto. Não duvidava que o exército já estivesse bombardeando a Black Mesa. De repente, seus inimigos surgiram e vinham em quantidades cada vez maiores. Repousou a mão sobre a cabeça pensando no melhor jeito de sair. Dobravam esquinas conforma corria. Era o pior lugar que havia ido e mal sabia o que tinha feito de tão errado para ser punido de tal forma. Uma escada estava erguida de maneira inusitada no meio de um corredor ao lado de uma caixa de ferramentas. A lâmpada fluorescente piscava. Quem estivesse ali certamente tinha fugido. Ao se abaixar para verificar o conteúdo da maleta, ouviu onomatopéias e rugidos que se aproximavam.

A munição da shotgun automática acabou quando quase lhe acertaram um choque elétrico. Escorregou em uma poça de água enquanto fugia de um grupo de extraterrestres. Em outro momento tropeçou em suas próprias pernas e ralou o braço rasgando a camisa. Quem estivesse filmando ganharia sucesso por gravar um vídeo cômico de um humano desengonçando fugindo de monstros repugnantes. Pensaria duas vezes antes de mandar alguém ir para o inferno.

Passou por vários postos médicos, porém não dava tempo de parar para se curar ou recuperar o fôlego. Em determinado instante atirava sem mirar, sendo que em um dos tiros acertou acidentalmente ricocheteou em um barril de combustível, fazendo-o explodir. Os alienígenas tiveram seus membros locomotores arrancados. Ganhou tempo por isso.

Ainda correndo parou em frente de um corredor, chutando um pedaço de concreto. Olhou incrédulo para a cena. A fiação estava arrebentada bem como uma longa parcela da parede. Restos de tijolos estavam espalhados. Raios azuis saiam pelos buracos ansiando para que alguém passasse por ali e fosse eletrocutado. Escutava o barulho estridente das cargas elétricas. Esperou para que os choques cessassem e saltou para a outra extremidade.

As criaturas tentaram passar, mas aos poucos foram sendo mortos pelas fiações ou recuavam vendo que não havia saída. No fundo eram seres com mentalidade inferior à sua. Forraram o piso de sangue, fazendo um tapete orgânico. Via a fumaça saindo dos defuntos. Provavelmente ninguém mais passaria por ali.

Minutos depois teve uma surpresa. Grandes blocos de concreto barravam a passagem. Atirou contra dois barris de combustível que estavam próximos. O resultado foi apenas um estrondo acompanhado do estouro que despedaçou os defuntos dos monstros que já havia matado. Um duto de ventilação estava arrebentado e caído em uma altura que conseguia alcançar. Teve de empurrar duas caixas de metal. As peças metálicas eram pesadas, mais ainda para alguém com as pernas machucadas. Pulou para dentro do tubo e fez desprender algo, mas não se importava.

Cansou-se e acomodou sua coluna em um bloco de cimento. Ligou a lanterna e posicionou o objeto de forma que iluminasse suas mãos. Algumas semanas antes tinha recebido a informação a respeito de testes com portais envolvendo elementos desconhecidos. O complexo inteiro se mobilizou posterior a este fato. Os seguranças foram orientados a não comentar nada, assim como os cientistas, principalmente os do Setor C. Um pequeno grupo foi contra a idéia, alegando que não sabiam as dimensões de tudo, todavia nas vésperas do incidente ninguém mais ousou se opor. Expedições foram realizadas em locais ditos altamente perigosos, porém sabia apenas que se tratava de um breve reconhecimento para finalmente testar os protótipos de portais. Comentavam que estranhos seres haviam sido capturados e guardados nos setores biológicos. Os sujeitos enviados para estas viagens nunca voltavam, até onde sabia. O laboratório decidiu uma tentativa mais ousada.

Barney ouviu da própria boca de um conhecido que uma pedra alaranjada de um lugar fora da Terra seria fornecida para a realização do teste. Só podia ser a pedra que havia visto no televisor da câmera minutos antes da realização. Não aceitava que aquilo fosse o responsável por essa destruição. Era impossível. Por mais que achasse tentadora a teoria para contar ao primeiro sobrevivente que encontrasse, não era bom pensar naquilo. Seu amigo Gordon tinha se metido em um calabouço que não podia sair. Não costumava chorar e não iria fazer isso agora.

Não sabia como ainda permanecia de pé mesmo ao receber choques elétricos, tombos, mordidas, cortes e até mesmo ser acertado por vapor quente. Já havia até lançado uma granada. Sua roupa estava em trapos. A calça azul estava rasgada em ambos os joelhos, denunciando e deixando exposto um pequeno sangramento. No seu rosto, duas longas feridas na bochecha chamavam a atenção. As mangas da camisa não se diferenciavam muito, sendo que em uma ponta ainda havia o sangue fresco de cor amarelada. Tratou de limpá-la. Ruídos chegavam abafados pelos zumbidos dos dutos de ventilação. O som parecia estar vindo de longe e se misturava com o vento.

Começava a se acostumar com o fato de ter que passar por caminhos longos e estreitos. Encontrou as pequenas saltitantes. Ainda não sabia como chamá-las, então deveria definir apelidos mais cabíveis, como caranguejos, mesmo achando um tanto ridículo e imaturo a comparação. Eles eram sinônimos de dor pelo ataque que davam. Foi pego desprevenido quando estava agachado para ir um pouco mais abaixo, ainda dentro dos dutos. Felizmente estava com a lanterna, o que evitou o animal de pular diretamente na sua cabeça. Sabia bem o que faziam após este golpe, e preferia se suicidar caso fosse pego. Deixava sua 357 preparada para atirar em sua cabeça.

A passagem dos dutos era difícil, bem mais complicada como daquelas que mostravam em filmes de ação onde o protagonista não sente a sensação de claustrofobia. A viagem pelos tubos parou quando achou uma grade. Arrebentou facilmente com a coronha da espingarda sem munição.

O quarto era pequeno. Uma escada, alguns barris e caixotes ganhavam ênfase pelo tamanho que correspondiam no espaço reduzido. Empurrou um barril posicionado na entrada da porta. Era uma despensa.

Quando saía escutou uma rajada de tiros. Eram disparos de armas automáticas que vinham na direita. Barney arrastou-se no chão como um militar na guerra. Avistou a cabeça de dois soldados com suas armas cintilantes e roupas camufladas. Erguiam os rifles como se fossem troféus. Conversavam algo no rádio com uma entonação grossa, de forma inaudível. Ainda abaixado, o segurança ficou paralisado e desesperado. Seus pulmões se inflaram o máximo que puderam, enchendo seus peito de ar que eram expulsos rapidamente.

Por algum motivo que não podia explicar, ou por puro instinto como em outras situações, largou sua espingarda e sacou sua 357 prateada que reluzia em seus olhos. Passou o dedo pelo gatilho frio e atirou. A bala zuniu em seus ouvidos e percorreu um caminho reto, atravessando o crânio de um fuzileiro. O sangue respingou na máscara do seu companheiro que observava o colega morto sob uma mancha escura de sangue, sem entender nada, completamente desorientado. Antes que visse o atirador, um projétil acertou seu ombro. Barney levantou-se. O militar agonizava de dor segurando com uma das mãos a ferida e a outra a arma, pronta para atirar em Calhoun, no entanto estava tão trêmulo que era incapaz de apontar o fuzil. O tambor da 357 girou outra vez. A bala atingiu em cheio a testa do soldado. Suas mãos caíram lentamente e seus movimentos se desaceleram até parar. Largou uma M4 no chão. Barney pôde sentir um pouco de arrependimento pelo que fez, mas caso não tivesse feito, era ele que estaria caído no chão coberto de sangue.

Uma voz surgiu. Olhou pela janela transparente preenchida por vários tiros. Abriu a porta e viu um cientista com óculos apoiado em um armário manchado. Tinha furos de bala no seu corpo. Balançava a cabeça pálida com cabelos grisalhos para os lados tentando afastar a dor. Observou o homem que entrara na sala de cima a baixo, sorrindo ao ver o emblema da Black Mesa no colete. Cada vez que falava cuspia sangue. Calhoun analisou a situação e percebeu que pouco podia fazer a não ser atender um gesto para que aproximasse no qual o velho cientista havia feito. Seus olhares despejavam confiança no segurança que apenas aproximou os ouvidos na boca do outro.

-Eu quero a sua ajuda, mas eu tenho medo desses canalhas que me deram tiros. Se você quer alcançar o frete de cargas na esperança de escapar, deve esquecer. Os soldados estão pegando tudo e todos que eles podem encontrar para matá-los ou levá-los daqui para… -O cientista pausou para cuspir enquanto inclinava o pescoço para frente e para trás.


-Eu e um colega tínhamos o nosso plano. Estávamos indo para um dos laboratórios de protótipo, mas… –O homem parou e suspirou.


-Ouça-me. –Continuou balançando a cabeça. –Se você quer sair daqui vivo, sua única esperança é encontrar o meu amigo. Se você conseguir passar pelos soldados, encontrará o Dr Rosenberg. Com ele terá uma chance… para sair desse lugar. –O cientista curvou seu corpo para frente. Caia devagar. Seus óculos caíram e as lentes quebraram.


Barney verificou os batimentos do sujeito. Deu leves tapas no rosto do idoso para tentar acordá-lo. Estava morto. Saiu pensativo do cômodo. Quem era o Dr. Rosenberg? E que laboratório de protótipo é esse?

Ao mesmo tempo uma série de suas interrogações foram respondidas. A presença do exército era lógica. Qualquer político sensato não iria permitir que um bando de funcionários de um complexo saísse divulgando detalhes da Black Mesa e sobretudo comentar do fracasso dos testes no Setor C. Ninguém iria aceitar que bilhões foram gastos em algo que havia saído errado e ainda arriscava a segurança nacional, ou até mundial. As forças armadas então entram para matar os funcionários da baixa hierarquia e prender os mais poderosos, afinal quem teria coragem de enfrentar os HECU?
Os HECU eram uma tropa de elite das forças armadas preparadas para combates em ambientes urbanos fechados de acesso limitado e difícil. Eram treinados no Arizona na Base Militar de Santego. Sua rotina era comparada com o dos fuzileiros navais pela afiliação. Apesar do foco em locais determinados, sendo exclusivos para a infantaria, os HECU dispunham de grande poder de fogo, tendo em seu arsenal veículos blindados como M1A1 Abrams, M2A3 Bradley, caminhões e até transportes aéreos ou de ataque como o helicóptero AH-64 Apache, V-22 Osprey para transporte de militares e o caça F-16.



Mesmo pensativo, resolveu avançar. Assistia com frequência seriados policiais e gozava do aprendizado que ganhava, então aprendeu novas técnicas de combate. Arrombou a porta que ficava ao lado de um cartaz com flechas de orientação. Ficou encostado na parede. Escutava um rádio crepitando, anunciando a presença de mais soldados.


Uma granada foi arremessada. Após a explosão, Barney resolveu olhar os danos. Para sua surpresa um soldado solitário o encarava ainda atordoado. Em segundos teve o colete todo perfurado assim como o capacete. Um dos braços quase se desprendeu. Calhoun seria preso e julgado como assassino em série se alguém o visse atirando daquela forma. Seus olhares já estavam paranóicos.


Com a M4 apontada, as armas na cintura e os olhares atentos, vislumbrou-se ao ver um letreiro de luzes vermelhas e brancas escrito “stairs” em meio de um corredor em construção. Uma escadaria para ele significava uma saída.


Girou uma maçaneta que dava acesso para as escadas principais. Era um escritório. Manteve a calma, ainda que escutasse zumbidos e grunhidos de rádio nos andares superiores. Os degraus de concreto sem qualquer acabamento, iam de zigue zague até atingir o topo. Começou a rezar a cada degrau que pisava, com medo de uma possível emboscada por parte dos militares, que até aquele momento já deveriam ter recebido a informação do segurança rebelde. O nervosismo era tanto que chegou a ficar zonzo.


Tentava frenéticamente abrir as portas. Suas mãos suavam. Como em um milagre, uma maçaneta girou completamente. Entrou e cautelosamente fechou colocando um caixote na frente. Cambaleando andou pela sala. Havia apenas algumas caixas de madeira, prateleiras de metal e garrafas de combustível.

De repente sua visão ficou embaçada. Sentiu as pernas amolecerem. Vagarosamente todo seu corpo inclinou para frente. Seu antebraço curvou-se para amortecer a queda. Não via mais nada, apenas uma escuridão incessante.

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