Half Life: Blue Shift - Capítulo 3 Prt.1








CAPÍTULO 3: Prt. 3
Capítulo 3 - Captive Freights - Parte 1

Freight Yard


Uma brisa fresca recebeu Barney quando este terminou de subir as escadas. Não acreditava que respirava o ar puro matinal sem o odor de esgoto ou de substâncias tóxicas que juntas faziam um bafo quente quando estavam no subsolo. Via o fundo buraco de concreto entre seus pés como se fossem um calabouço. Sentia-se ligeiramente aliviado e feliz por ainda estar vivo. Tudo aquilo poderia ruir mas não estaria ali para assistir. O sol quente do meio-dia, quase escaldante, pairava nas montanhas do Novo México. Não sabia que horas eram, mas pelos seus cálculos e os seus conhecimentos de sombra deduziu um valor aproximado.

Aos poucos as pálpebras do segurança se acostumaram com a abundância da luz, assim como seus músculos que de certa forma ficaram mais relaxados. Não havia ninguém exceto um caminhão do exército que estava cuidadosamente posicionado para bloquear o caminho de um grande portão metálico, sendo protegido por três montes de sacos de areia. Uma pequena estrada de asfalto fazia uma curva em meio de grandes colinas de pedra. Havia outro portão na sua direita. Quem ligava? O exército veio salvar todos.

Colocou a espingarda no chão e acenou erguendo as mãos o mais alto que podia. Ninguém respondeu. Por um momento pensou o quão imbecil era ficar ali se ninguém nem sequer falava. Poderia ser o único sobrevivente do complexo e os soldados possivelmente estavam mais preocupados em eliminar os invasores. Na situação que se encontrava temia fazer muito barulho e uma outra bola verde de teletransporte se materializasse na sua frente e largasse qualquer outro ser que nunca havia imaginado que existisse. 

Aproximou-se mais alguns metros da pilha de sacos de areia e dessa vez ouviu algo. Como se fosse um brado salvador e longínquo, dois sons robóticos cortaram o suspense.


Atrás dos bloqueios de areia, viu dois tripés emergindo das sombras. Recuou lentamente, pegando a calibre 12 automática quase sem munição que deixara no chão. Apontavam para o invasor e soltavam bipes.Os tripés começaram a atirar contra Barney, que correu na direção de uma placa que o protegia dos disparos. Se contorcia como se estivesse sendo alvejado. Tinha caído de mau jeito.

Os projéteis zuniam em seu ouvido, outros se chocavam contra a placa metálica e a furavam. Se fechasse os olhos se sentia no Dia D, embora não houvesse participado. Desviava conforme acertavam o retângulo metálico que aos poucos se transformava em uma peneira. Não dava para ficar ali muito tempo. Parecia estar atrás de um pedaço de papel. Quando as rajadas cessaram, retornou na escada de acesso da superfície. Os músculos amoleciam no calor.


Deixou novamente a shotgun no chão e arrancou a pistola. Resolveu tentar uma atitude ousada. Tinha apenas uma mão para atirar em dois tripés que mais pareciam metralhadoras rotatórias dignas dos tempos do Vietnã, enquanto com a outra segurava um dos degraus da escada. Se caísse não teria colete que o salvasse, assim atirou. Quando disparava, a adrenalina o impedia de contar quantos tiros poderia dar, mesmo contando mentalmente ou falando alto. Usou quase um cartucho inteiro enquanto era recebido por balas que por pouco não o acertavam. Apesar de serem robôs não atiravam com maestria.


Instantes depois uma fumaça preta seguida por faíscas subiu como uma bandeira branca de rendição tremulante. Restava somente um alvo. Pulou e correu na direção de um poste próximo de uma colina. Ali estava seguro e se esgueirasse um pouco o corpo, conseguiria acertar facilmente o outro tripé. Assim fez. Pulou contra os sacos de areia e disparou os últimos projéteis da espingarda, que perfuraram as partes de aço da torre acertando outros mecanismos primordiais para o seu funcionamento.

Andou na direção do caminhão. Não havia ninguém como já esperava. Todo seu esforço foi recompensado ao achar alguns explosivos. Havia granadas e bombas acionadas por controle remoto. Tentou colocar tudo o que conseguia no cinto. Não sabia como usar. Pegava aquilo com impulso ou um simples vício incomum. Com certeza as forças armadas não sentiriam falta.


O portão no qual o caminhão tampava não abria, se não houvesse a outra abertura iria fazer uma ali mesmo ou detonar uma granada em seu corpo para acabar de uma vez com isso. Empunhou a arma e adentrou no outro túnel escuro.

Seus passos faziam um barulho tão alto como angustiante. Não era um dos melhores caminhos, porém o único, o mais acessível. Era como se estivesse em um filme de terror e fosse uma vítima patética caminhando inocentemente com um monstro a espreita. Notou uma luz vermelha piscando ao longe perto de uma curva. Cautelosamente, esperando outra armadilha, Barney se aproximou e viu um SUV da Black Mesa. O funcionário escondeu-se. O veículo cuja lataria estava repleta de perfurações de bala e manchas de sangue, permanecia com as luzes acessas e com a porta do motorista ainda aberta. A cena parecia ser de uma guerra. Um corpo de um segurança estava jogado fora da SUV com uma .357 Magnum, um colete perfurado com sangue em volta assim como o capacete. O passageiro da SUV era um cientista que permanecia com a cabeça inclinada no painel do veículo. Na sua testa com poucos cabelos, uma marca de perfuração à bala deixava um rastro de sangue escorrer pelo seu rosto, percorrendo um caminho até fora do carro. Calhoun conteve um grito de espanto. Podia imaginar a cena da dupla fugindo. Inicia-se um tiroteio e o guarda sai para revidar os disparos, porém seu corpo é alvejado várias vezes por armas de grosso calibre furando seu colete e acertando diretamente seu corpo, caindo morto no chão sem chance de pedir ajuda. 
Vários projéteis estavam espalhados pelo túnel. Não era nenhum detetive, no entanto reconheceu as munições da 357 e de 5.56. Calhoun engoliu seco e ficou lívido. Até onde sabia, calibre 5.56 era de fuzis padrões do exército.

Ouviu um ruído estridente após assobiar. Admirou-se com a altura do eco e assim rapidamente pegou o revólver e colocou no cinto. Poderia acabar igual aquele segurança. As armas estavam exercendo uma grande pressão em sua perna. Largou uma granada no chão e pegou munição para sua espingarda que estava no porta-malas da SUV.

Adiante viu uma sala de manutenção com a entrada gradeada. De fato preferia não continuar naquele túnel neurótico que aumentava os sons dos ruídos que fazia.

Com um tiro estourou o cadeado que trancava o portão. Uma escotilha estava ao lado, tendo que girar uma válvula para abri-la. Deveria ter trazido consigo o pé de cabra invés de armas automáticas barulhentas. No alto havia uma placa iluminada por uma luz vermelha sinalizando “Steam Tunnel Access”, mostrando a entrada do inferno, conforme pensou. Barney resmungou e fez uma careta ao ver o poço, se é que existia um fundo. Uma lufada de ar quente saiu de dentro, misturado com o cheiro de fréon. Mais uma vez teria que descer na direção dos esgotos da Black Mesa.

A escada era enferrujada, mas ao menos a válvula de abertura da escotilha estava lubrificada, algo raro na Black Mesa. O fartum de esgoto misturado com outros cheiros repudiados pelo olfato surgiram novamente como um colega inseparável e insuportável. Desceu alguns degraus até que de repente seu coração foi para o alto assim como seus braços. A adrenalina subitamente surgiu. A escada havia se partido.


Um pedaço de ferro enferrujado bateu em seu capacete. Deveria ter lido algo relacionado com as Leis de Murphy. Havia caído de costas no chão e sua coluna latejava violentamente. Por pouco sua pélvis não se partiu assim como seu antebraço, dolorosamente apoiado abaixo do seu corpo, suportando todo o seu peso. O ambiente não parecia nada convidativo. Estava em um sistema de pequenos túneis que a Black Mesa ainda mantinha em uso apesar de serem antigos. Eram usados pela equipe da manutenção para facilitar o trânsito de funcionários e arrumar antigos canos de gás. Ao verificar o estado do lugar, agradecia por não ter que passar diariamente por ali.


Quando seus movimentos voltaram e conseguiu se levantar, uma daquelas pequenas criaturas pulou em sua direção. Sentiu como se estivesse sendo cortado por uma espada. Lançou um gemido enquanto esboçava um sorriso maléfico de vingança. Atirou contra o alienígena que teve o corpo perfurado pelos projéteis penetrantes e insanos da calibre 12. Começou a achar isso divertido, por mais que precisasse de bons curativos e alguém para conversar. Virou a esquina e achou outra criatura igual, mas desde que não o pegassem de surpresa seriam alvos fáceis.


A rede de túneis era grande. Teve de girar válvulas e passar por locais onde temia que os indesejáveis e abundantes canos velhos estourassem e despejassem em sua frente algo nada agradável. Aqueles alienígenas dominaram a Black Mesa. Por um instante parou diante de um corredor que havia vapor quente. Pequenas nuvens de freon aos poucos ganhavam espaço, impossibilitando ver algo de longe. A válvula para desligar o vazamento estava quente, praticamente entrando em ebulição. Embora tenha passado correndo, a região renal estremeceu enquanto seus pés ardiam. Se fosse ver seu corpo no espelho iria se assustar.

Parecia uma minhoca em um grande jardim, andando em túneis esféricos. Ali as lâmpadas piscavam, faíscas saíam através de paredes estouradas e a água absurdamente aquecida oriunda dos tubos de gases quentes transformavam o trajeto em um desafio. Em um dos túneis, seus olhos começaram a lacrimejar ao rodar uma maçaneta e encontrar um corredor coberto de uma nuvem que adquiria a cor vermelha sob as luzes de emergência.

No final do túnel, a situação não era diferente contendo várias marcas escuras de mão, restos de cano e concreto. Esticou a cabeça e viu dois alienígenas robustos que cuspiam, ou apenas vomitavam longe demais. Como o outro que encontrara nos dutos, eram fortes e igualmente perigosos.  O ácido que deixavam no caminho fazia o concreto efervescer, todavia agora possuía uma arma secreta.


A granada no seu cinto era como um amigo fiel que o acompanhava a todo o momento. Retirou o pino e admirou por segundos o explosivo antes de jogar. Um brilho amarelo seguido por um estrondo que ressoou no local resolveu seu problema. Sangue, restos de ossos e órgãos poderiam ser vistos ao longe. A carne amarelada da dupla de criaturas exalava um cheiro peculiar, sendo que em um deles saia fumaça de suas entranhas espalhadas pelo chão. Um líquido de mesma cor escorria pela parede, ganhando realce por esta ser cinza. Um buraco negro marcava o local da explosão. Poderia não se sentir completamente vingado, porém admirou o estrago e o sofrimento que havia imposto naqueles invasores que interromperam sua rotina de maneira tão abrupta. Caminhou calmamente até ver um elevador que dava acesso aos andares superiores. Não havia nada de tão interessante ali, exceto pedaços de barris de combustíveis que pegaram fogo durante a explosão da granada. Um duto de ventilação com grades estava a sua frente junto de caixotes de madeira.

O guarda apoiou-se na parede, viu o lugar e riu. Fez uma rápida verificação no seu pequeno arsenal e na sua situação. O administrador deveria estar bem longe  dali e provavelmente em uma limusine ou um jato confortável, abandonando toda a Black Mesa, seus funcionários e a história do lugar. Para Barney era culpa dele e daquele homem pálido de terno que viu antes de tudo acontecer. Fungou o nariz e coçou suavemente o ouvido, apertando o botão do elevador. Enquanto subia, examinou o local pela última vez. Talvez fosse o último visitante daqueles corredores.

 
Esqueceu seus companheiros da Área 3, o cientista rabugento do elevador, das criaturas inusitadas que encontrara e finalmente dos intensos alarmes. Apenas uma palavra ressoava em sua mente: sobrevivência.
 

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