Livro: Half Life: Blue Shift - Capítulo 1





Na primeira postagem do meu blog, irei colocar o capítulo número um de um projeto que venho realizando algum tempo. Trata-se o jogo Half Life: Blue Shift, expansão do clássico Half Life, narrado em forma de livro!

Também tenho projetos para fazer o mesmo com o Half Life 1 e o Half Life Opposing Force e em breve pretendo colocá-los em prática. Enfim, apreciem a história!
Deixo meus agradecimentos ao site Cogumelando que me auxiliou no desenvolvimento nesta adaptação divulgando o meu trabalho.

Sinopse: Barney Calhoun (o mesmo do Half Life 2) é um segurança da Black Mesa, complexo de laboratórios localizado no Novo México. Após os testes com portais envolvendo um estranho cristal, o local entra em um estado caótico. Os equipamentos ficaram danificados e muitos funcionários acabam morrendo, além disso portais se abrem trazendo alienígenas de outra dimensão que matam os que restaram. O elevador de Barney despencou enquanto tudo ocorreu. Agora ele terá de atravessar os níveis subterrâneos na Black Mesa para conseguir ajuda, mas para isso vai ter de passar por vários locais e inimigos, incluindo tropas do exército que se demonstraram hostis ao chegarem no complexo.



Capítulo 1 - Insecurity



Area 3 Security Facilities


A Black Mesa não é o lugar que paga bem os funcionários menos qualificados, porém oferecem uma série de benefícios como plano de aposentadoria, dormitórios, enfermaria e alimentação gratuitos além de algumas opções de lazer. Mas o que é Black Mesa? Simplesmente a maior corporação científica de laboratórios dos Estados Unidos, senão do mundo. Cada Setor recebia orçamentos bilionários do governo. Não é exagero dizer que o complexo possui milhares de funcionários, desde o faxineiro analfabeto até o cientista com pós-doutorado em Física Quântica. De qualquer forma a gestão responsável pela admissão de funcionários não julgava ninguém. Essa é uma das possibilidades da "BM" nunca ser estéril.

Barney Calhoun desfrutava dos recursos que lhe ofereciam. Gostava do emprego. Após dois anos de indecisão na Martinson College sentiu sua rotina mudar. Preencheu vários formulários até receber o convite para participar do campo de treinamento. Nada de diferente, apenas testes de mergulho, sobrevivência e de tiro além de ser apresentado para alguns funcionários. Isso lhe valeu, finalmente, o emprego de Segurança da Black Mesa e logicamente não hesitou em aceitar o serviço. Sua função era ajudar a equipe de cientistas quando necessário e manter a conservação de tudo. Dessa forma não culpava a rigidez das normas afinal o conteúdo dos laboratórios eram simples microscópios que podiam ser usados por qualquer criança, até silos de mísseis e setores de testes de alta tecnologia que mantinham em sigilo seus principais objetivos. Barney notou que com a evolução do local houve um aumento no seu salário.

O dia era bonito. Um helicóptero militar levantara vôo assustando os que insistiam em ficar sonolentos. O Sol já estava alto e um funcionário atrasado tentava chegar no serviço correndo. Barney estava de pé no bonde elétrico projetado pela própria Black Mesa para o transporte de funcionários entre suas diversas instalações. A malha era grande o que rendia mapas concedidos a todos os funcionários sobre os trilhos do bonde.

Calhoun olhou para seu relógio digital arrumando a gola da gravata azul escuro que combinava com a camisa clara e a calça de coloração similar. Era um típico segurança com cabelo curto estilo  militar. Sua cara jovem por vezes lembrava a de um oficial prestes a ir para o Vietnã. Possuia corpo robusto e algumas rugas em seu rosto redondo. A vestimenta era o padrão de todos os guardas. Apesar de estar longe do seu destino se recusava em sentar. O burburinho sobre um teste importante envolvendo possíveis portais era tema de conversa entre muitos e hoje seria realizado. Para Barney não era motivo de preocupação. No que ele poderia ajudar? Talvez essa era uma das vantagens de ter esse tipo de serviço. Por outro lado não ficava a par de grandes descobertas. O complexo era tão grande que boatos poderiam ser criados.

A Black Mesa recebia do governo, sendo que suas estruturas e o modo que fora construído fortaleciam tal afirmação. Estava a frente de concorrentes como a Aperture, outra corporação científica. Era ingenuidade pensar que alguém em um dia iria superar a Black Mesa. Se os soviéticos tivessem o conhecimento destas instalações possivelmente a Guerra Fria teria acabado mais cedo. Enquanto a Black Mesa considerava a Aperture um concorrente com baixo potencial, esta por sua vez considerava a BM uma eterna rival. Então com pouca hesitação a Black Mesa duplicava seus lucros graças aos convênios com o governo, acima de tudo com as forças armadas, que ocasionalmente traziam engenheiros nos laboratórios para a fabricação de armas e mísseis. Relacionar a BM com o governo era tal como comparar prostitutas com seus clientes. Um precisava do outro para se manter vivo.

Algumas partes do lugar permaneciam quietas para não dizer dormindo. A barba à fazer e os olhos sonolentos provavam que acabara de sair dos dormitórios. Havia um letreiro grande na entrada da Black Mesa que sinalizava o seu nome. Mergulhou em uma fenda em meio de uma montanha. O trilho era bem iluminado. Cientistas lavavam seus jalecos brancos lendo jornais enquanto seguranças jogavam em um nível frenético nos fliperamas próximos dali. Por vezes sentia-se ofendido em ter que trabalhar nos níveis subterrâneos. Com tantos túneis e pessoas, fazia a Black Mesa assemelhar-se com ratos no esgoto.


Os bancos estavam vazios, inclusive o de deficientes. O ar refrescava seu corpo de modo que se acalmava. A propagação do vento e o cheiro de pizza assada vinda dos refeitórios onde vários seguranças gordos e demais funcionários debulhavam seus pratos, fazia o estômago de Barney contorcer-se de uma maneira estranha e incomoda. Não havia comido nada. A única coisa que o irritava era de ter que ouvir o discurso da voz robótica do trem, que dava conselhos, alertas e notícias acerca do veículo e do laboratório.

A viagem toda deve ter durado 5 minutos. Passou por um posto de segurança onde foi atendido por um guarda obeso que segurava uma prancheta. Entre suas diversas perguntas relativas ao seu emprego, não entendia o motivo de ter que ficar passando por estes postos. Era apenas a centésima vez que entrava no mesmo lugar. No fim do trajeto esperou calmamente a porta se abrir. Parou em um lugar sinistro. A escuridão era total, exceto na plataforma onde estava que era iluminada por uma lâmpada fluorescente.
O bonde foi embora e outro vinha em sua direção. Barney reconhecia o ocupante do outro veículo. Era Gordon Freeman, um conhecido senão amigo. O cavanhaque charmoso, jeito intelectual cujos sentidos apurados fizeram-no estudar na MIT e seu modo silencioso de resolver as coisas fazia todos gostarem dele. Calhoun acenou enquanto ele passava, mas o outro respondeu apenas com olhares atentos e astutos. Não costumava falar.


O segurança deu os ombros e conferiu seu relógio. 8:42? Estava atrasado! Agora entendia o motivo de todos já estarem uniformizados e os bondes estarem vazios. Bateu uma, duas ou três vezes. Antes que repetisse o movimento uma voz vinda de dentro o interrompeu.
-Espere um pouco. A porta não responde aos nossos comandos. Vou tentar novamente no outro lado.
“Maldito Setor C”, pensou. Se não gostasse tanto do serviço chutaria aquela porta como um vândalo faz ao avistar uma cabine telefônica solitária a noite. O problema fora resolvido rapidamente. Sentia-se feliz por pelo menos estar entre pessoas competentes. Estava ofegante.

Um vento frio fez estremecer todo o seu corpo. O ar congelante adentrou em suas narinas subindo até a cabeça, fazendo o segurança ter calafrios constantes. Achava que exageravam no ar condicionado. O guarda que abriu a porta era pouco alto, magro e com olhos escuros penetrantes. Recebeu Barney com um sorriso estampado na face. Aquela gentileza quase o fez rir. Logo atrás do homem havia um cartaz falando sobre sucesso e união na Black Mesa.

-Senhor Calhoun. Está manhã estamos tendo problemas em toda a instalação. Problemas no sistema e falhas de segurança. É assustador trabalhar aqui.

Para os funcionários poderem se orientar foram pintadas faixas que correspondiam a cada parte do local. Seguiu na direção do letreiro que simbolizava "Área 3 de Segurança". Passou reto por uma pequena área de descanso com máquinas de salgadinhos, refrigerantes e sofás. Não dava tempo de comer. A entrada era por uma porta de vidro que abre automaticamente. Quando esta permitiu a entrada de Barney, a fortaleza da segurança da Black Mesa surgia. O piso era bicolor, com azulejos pretos intercalados com cinzas interrompidos somente pela suntuosa insígnia do governo norte americano com uma águia que ganhava ênfase no escudo com as cores da bandeira.

Mais a frente, abaixo de Eddie, um segurança conhecido de Barney conhecido por digitar milhares de palavras em poucos minutos, havia uma fileira de monitores que denunciavam problemas no setor. Um segurança discutia com um cientista. Ninguém parecia estar feliz hoje.
-Não consigo acessar meu e-mail! –Disse o cientista queixando-se. -Eu não consigo ver o meu trabalho! Eu nem sequer consegui entrar no meu escritório!
-Eu sei, eu sei. Senhor, nós estamos trabalhando nisso. -Disse o guarda de segurança no escritório.

-Olha, estamos enviando a manutenção, você tem que nos dar mais algum tempo.

-Tempo? -Rugiu o cientista incrédulo batendo com o punho na mesa. -Não tenho tempo. Se eu não começar meu relatório para o administrador agora, o meu trabalho pode estar em perigo! Certifique-se que eu não sou o único.
Com isso, o cientista saiu correndo da mesa rumo na direção da porta de vidro deslizante, batendo fortemente o par de sapatos no chão.

Antes que Barney entrasse no vestiário, Eddie o chamou.
-Parece que alguns cientistas estão tendo problemas com o elevador principal no Setor G. Por que não vai até lá para verificar o que está acontecendo?

Barney suspirou. Uma outra avaria? Será que eles nunca terminam de quebrar tudo? Seguiu para o vestiário. O cômodo era coletivo em todos os aspectos, desde o chuveiro até as torneiras, se estendendo até a lavanderia. Verificou rapidamente a face em um espelho comprido que havia enquanto lavava as mãos. A barba não estava tão grande como pensava, nenhuma demonstração de sonolência, uniforme correto. Estava perfeito. Um conhecido de Calhoun arrumava o coturno, mas este nem o cumprimentou.

A Área 3 de Segurança ganhava diversos apelidos. Não tinha o mesmo ambiente ascético e triste do restante do complexo. Foi projetado para que todos se sentissem bem, por mais que estivessem no trabalho. Havia máquinas de doces e salgados além dos refrigerantes, sanitários sempre limpos e aquecimento de água nas torneiras e duchas acompanhadas de toalhas brancas e vários rolos de papel higiênico a disposição de todos. A Black Mesa tinha uma imensurável lista de lemas, e entre elas citava que um funcionário, independente do serviço que exercia, teria o mesmo tratamento que um executivo. Não era isso que ocorria. Um pouco atrás tinha dois corredores com fileiras de armários azuis, destes com cadeados em que se vêem nos colégios. Um deles estava gravado o nome Calhoun em amarelo. Barney abriu o cadeado com uma senha numérica. Dois livros sobre conspiração, uma caixa de papelão, um capacete, coldre com cinto de utilidades e o seu colete colocados regularmente dentro do cubículo.

Esta rotina monótona, todavia minuciosa quanto as seus deveres o fazia feliz de um modo bastante discreto. O coldre estava polido como o capacete. Vestiu tudo. Sentia-se mais forte usando aquilo. O capacete que em momentos parecia espelhado de tão limpo que estava, chegava a produzir reflexos. O material de proteção era composto de fibra sintética, porém Calhoun esperava nunca ter que testar aquilo, tampouco ter que usar a sua arma.
Os livros de conspiração que estavam ali pensava em guardar em um lugar mais seguro, quem sabe até secreto. Qualquer dia poderia invadir os escritórios e vasculhar alguns papéis interessantes.

Na saída do vestiário, Barney deu uma longa baforada que foi em seguida interrompida por um grito de Eddie:
-Ah não, de novo não. Estamos com problemas no Setor C!

Aquilo fez Calhoun lembrar-se da porta eletrônica que estava quebrada quando estava entrando no setor. “Esse teste ainda vai explodir o Setor C inteiro”, refletiu. Em seguida tomou o mesmo caminho para o arsenal. Que segurança é aquele que não tem equipamentos?
Dois guardas treinavam tiro, ou melhor, um, o outro era mais um dos seguranças obesos da Black Mesa que se deliciava com uma rosca.
O guarda que o atendeu tinha rugas em toda a face. Lia uma revista sobre assuntos militares com os braços apoiados nas duas extremidades da mesa, protegido por um vidro a prova de balas com um espaço somente na parte inferior onde passava as armas.
Quando ele levantou a face, fitou um olhar desconfiado em Barney que em seguida transformou-se em um sorriso amigável. Existia um certo temor com guardas novatos que estes pegassem a arma e atirassem em todo o lugar.

O segurança inclinou o corpo e retirou uma pistola 9mm de uma gaveta e depositou sobre a mesa. Barney pegou e enfiou no coldre juntamente com um pente reserva. Se tinha algo que ficava indignado era com o poder persuasivo dos funcionários de laboratório. No fundo do arsenal havia uma fileira com várias espingardas, suas preferidas. Segundo os cientistas, usar uma arma muito potente em um ambiente delicado poderia causar estragos “irreparáveis”. Então os únicos que poderiam utilizar tais armas eram os seguranças que ficavam na parte da superfície do complexo, sobretudo aqueles que guardavam as entradas. Mas não era de todo o problema, a pistola que usava era simples, segura e certeira. Realmente perfeita.
-Bem, eu vejo que você está com pressa, mas se você quiser ir para o quarto alvo praticar, há espaço de sobra para isso. -Disse o guarda voltando a ler sua revista.

Estava pronto para seguir o seu caminho. Existia uma sala em particular que fazia seu emprego ser muito bom. Tratava-se da “Vídeo Surveillance”, a sala de monitoramento da Black Mesa. Passou pelos corredores vazios com paredes e pisos esbranquiçados, típicos de cientistas. Ele tinha que relatar o que estava acontecendo na área 9, verificando as câmeras. O quarto era escuro. Havia três cadeiras com encosto de couro. Uma janela separava a entrada dos balcões com monitores. Os painéis eram cheios de botões coloridos. Não havia ninguém e apenas três câmeras estavam ligadas, entre elas a da sala de tiro, que estivera minutos antes. Quase riu quando viu Gordon entrando na câmara de testes do Setor C através da câmera. Nem ali ignorava sua postura quieta e côngrua. Na terceira ficou surpreso. Uma moça usando uma vestimenta estranha, alaranjada, empurrava um carrinho que segurava um cristal brilhante.

Tinha visto roupas como aquelas mas não sabia o motivo de usarem aquilo. Por alguns instantes tentava entender consigo mesmo o que era aquilo. Franziu o rosto e apoiou o cotovelo na mesa colocando a mão direita nos lábios. Seja lá o que fosse estava acima do seu conhecimento.
Seguiu para a H-E Particle Labs, que segundo muitos seguranças era mais um lugar de frescuras de cientistas. O guarda que estava na porta do acesso restrito olhou Barney da cabeça aos pés, analisando se estava tudo em ordem. Sua expressão era de intimidação. Na realidade como se tratava de um laboratório de partículas era exigida a vestimenta necessária. Sua rotina? Bom, era essa.

Passou por um grande tubo esférico de metal que não podia ver sua profundidade e nem até onde ia. Um burburinho nascia perto de onde estava passando. Alguns funcionários consertavam um painel com vários monitores. Uma pequena explosão foi ouvida ao longe, quando Barney estava descendo pela escada de serviço. Por mais que não quisessem afirmar os “grandes chefes” da Black Mesa, tinham direcionado muita energia para o Setor C, além disso alguns sistemas já eram obsoletos demais.

O cansaço da correria já tinha atingido Calhoun. O segurança precisava percorrer um trajeto muito longo para chegar até o elevador que levaria ao Setor G, que segundo um velho funcionário que encontrara no caminho lendo calmamente um jornal próprio da Black Mesa, estava com problemas no sistema elétrico.

Encontrou uma pequena ponte levadiça que era acionada a medida que o trânsito dos bondes estava paralisado. Como estava próximo do sistema de esgotos e tratamento do complexo, essas barragens eram bem frequentes. Barney finalmente fez o seu caminho para fora do canal. Contrariamente às suas expectativas, não tinha sido tão ruim como ele esperava. O sistema foi drenado e estava muito seco, então estava grato porque isso significava que não teria de percorrer qualquer esgoto hoje. Ele se aproximou do topo da escadaria aos comandos para acionar o mecanismo. Havia uma ponte que conduzia a área onde estava o elevador, então ele apertou o botão para estender a passagem. Uma buzina foi ouvida e a resposta foi uma negação que anunciava que um bonde estava chegando no túnel à direita. Imaginava que eram apenas problemas, mas esse pensamento foi imediatamente desmentido quando surgiu o trem no túnel. Barney franziu a testa mais uma vez. Esse trem não era definitivamente um bonde de manutenção, era regular. Com a demora teve vontade em dizer um xingamento, contentando-se com um suspiro. O trem começou a passar por ali. Seu ocupante intrigou Barney. Nada normal pelo menos para sua definição de fisionomia. Era um homem de terno similar com que executivos usavam. Carregava uma maleta. Aparentava ter quase quarenta ou cinquenta anos, afinal sua face era dominada por rugas e os cabelos com entradas e discretos fios esbranquiçados. Possuia nariz fino, traços do rosto bem delineados e lábios um pouco secos. Seu olhar negro, em particular, assustou Calhoun. Sentiu os pêlos se arrepiarem.

Os cinco segundos que passou em sua frente foram rápidos, no entanto aquele sujeito parecia ter domínio de sua mente por um tempo. Era penetrante, frio e impiedoso. Seu corpo estremeceu. Quando o bonde passou sentiu um alívio. Nunca uma pessoa havia causando tanto impacto em seus pensamentos de forma tão súbita. Quem era aquele homem? Já havia ouvido falar de um rapaz estranho do alto escalão da Black Mesa, mas nunca saberia que ele iria aparecer na sua frente naquela forma e lugar. Acabara de consolidar a representação do medo designando-a em uma só pessoa. Tentou esquecer disso seguindo o seu caminho, lembrando-se dos seus livros de conspiração.

Pela primeira vez estava considerando a possibilidade muito real de que algo poderia dar errado. Quando a ponte abaixou e conectou com a outra extremidade provocando um estrondo, isso acabou destruindo seus pensamentos. Ele passou pela passarela de metal e depois em uma escada. Dirigiu-se ao Setor G, passando em uma máquina de bebidas. Ele pensou sobre a obtenção de um refrigerante, indo contra a sua vontade. As máquinas de venda automática nunca funcionavam, exceto quando recebiam socos e pontapés. Ele virou a esquina e finalmente aproximou-se do elevador com dois cientistas dentro que estavam a sua espera. Um deles era um negro, pouco velho com cabelos meticulosamente penteados e pálidos em volta da cabeça. Estava irritado, no entanto seu rosto denotava apreensão. Tinha atravessado vários túneis escuros e úmidos e permanecia tranquilo. O outro era branco, cabelo grisalho de forma que lembrava Albert Einstein. Ambos tinham crachás e os jalecos tão limpos que pareciam ter sido jogados e passados com flocos de neve
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-Bom. Quanto pagamos a você para passear por aqui? Parece que não quer trabalhar nesse dia miserável. –Falava o cientista negro com as duas mãos na cintura.
Barney deu os ombros. O elevador começara a descer. Graças a esse problema sua rotina foi estragada. Na próxima vez que voltasse a Área 3 de Segurança iria pedir para nunca mais estar envolvido com serviços de manutenção. Enquanto refletia sobre esses assuntos, um ruído estranho parecia ter desencadeado uma falha de energia. O elevador de repente sacudiu e parou.

De tão ensurdecedor que era o lugar que nem conseguiu ouvir o que os cientistas e as caixas de som diziam, escutando apenas algo relacionado com o Setor C que estava sob situação crítica. Aquele maldito teste só poderia ter dado errado. Torcia para que tudo estivesse bem com Gordon, lembrou-se que seu amigo estava lá. Mas um pouco de adrenalina até que seria bom, desde que não ficasse ali.
-Ah não. –Reclamou um dos cientistas.

Era só o que faltava, ficar preso no escuro com duas pessoas que mal conhecia direito. Pensou em dizer algo, mas não afetaria em nada, nem sabia ao certo o que estava ocorrendo. O alarme começou a ser soado. Calhoun sentiu um frio percorrendo-lhe a espinha chegando até os dedos dos pés. Massageou as têmporas expirando o ar de forma que ficasse tranquilo. Sua vida entrara em um turbilhão assim tão rapidamente? Havia visto o sistema de emergência sendo ligado apenas duas vezes. Na primeira foi um engano causado por um funcionário novato e a segunda foi teste. Entretanto esta vez não parecia com nenhuma das alternativas.

Enquanto os seus dois companheiros soltavam onomatopéias tais como resmungos e xingamentos, tentava se concentrar. Pararam em frente de uma linha férrea dos pequenos bondes dos depósitos da Black Mesa. Estavam presos e só conseguiam enxergar algo devido a grande abertura do elevador, que ficou em um silêncio incômodo e proporcionalmente assustador. Apenas a lâmpada de emergência estava ligada.
-Meu Deus! -Gritou o cientista idoso.

Alarmes começaram a soar e instantaneamente luzes começavam a cintilar em todo o lugar. Agora estava confirmado que algo não tinha saído da maneira certa. Colocou as mãos nos ouvidos. Não tinha fome, sentia medo, angustia, nervosismo e pensava que teria um ataque cardíaco ali mesmo. Pegou com tanta força na coronha da pistola que suas mãos suavam.
-“Atenção! Perigo biológico detectado no Setor C!” –Alertavam as caixas de som.

Um barulho alto soou e Barney virou-se e para seu horror, uma bola verde de energia piscou e depositou uma monstruosa criatura dentro de um corredor à direita do elevador, protegida apenas por vidros. Tinha cor acastanhada, um braço no seu peito e algo avermelhado que encobria a maior parte do rosto. Só poderia estar tendo alucinações vendo uma coisa daquelas. Um cientista se virou e viu a criatura. Ele gritou e entrou em pânico correndo para algum lugar fora de sua vista. Abaixo um funcionário corria sendo seguido por alguns animais. Cachorros? Talvez. Eram criaturas pequenas amareladas que latiam como cães. Mas eles só tinham um pé pequeno em sua traseira e uma estranha malha que recobria o corpo inundado de muco. Um guarda surgiu e passou a perseguí-los, distribuindo tiros para todos os lados e parando perto de uma barreira de segurança ferroviária. Os sons do alarme faziam uma melodia do terror, como uma orquestra fantasmagórica em um teatro vazio.

Olhou para trás. O negro estava desmaiado ou morto, cujo corpo permanecia contorcido no chão, embora a confusão que ali se instalara. O outro cientista estava com as mãos na face, tentando se proteger inutilmente do que estava por vir. Um outro alarme iniciou-se, desta vez a do sistema de bondes que anunciava a chegada de outro veículo. O segurança que estava atirando segundos antes ergueu os braços em vão, sendo atropelado friamente. O corpo tombou de forma rápida para o lado. O condutor que não conseguiu parar o veículo foi lançado contra a parede, caindo espalhafatosamente no chão sob uma poça de sangue. O pequeno trem de cargas capotou e parou apenas quando chegou no muro. Barney olhava isso pálido e com as mãos tão tremulas que mal conseguia tatear a lanterna. O complexo entrara subitamente em um estado caótico, incontrolável e que ninguém entendia. O elevador permaneceu como um pêndulo, mas por pouco tempo. Um estralo pôde ser ouvido. Os cabos de metal estavam se partindo como fio de pesca. A peça quadrada de aço começou a descer sem controle para um poço sem fundo. Os botões soltavam bipes intermitentes que provocavam uma série de faíscas. A luz vermelha, a sinfonia de alarmes e o grito desesperado do cientista que aclamava em viver fazia tudo parecer um filme de terror. O coração do guarda parecia que estava descendo até os pés. Os vasos sanguíneos não pareciam fazer a mesma trajetória normal, agora aparentavam estar pedindo para sair do corpo de tanta pressão que exerciam. Barney teve vontade de rezar, pedir clemência para Deus ou seja lá o que fosse. Bateu a cabeça contra o teto do elevador quando este reduziu bruscamente a velocidade. Tudo aconteceu tão rápido que mal entendia o que acabara de ocorrer. Havia caído no inconsciente. Não viu e não sentiu mais nada, absolutamente nada.









Comments

  1. ainda não joguei esse half life. joguei só o 1 e o 2 mas vou ler.

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